Blog do Orlando

Orlando Teixeira de Andrade

23/11/07

Palavras Ausentes

Quando conspiravam para derrubar a Monarquia, os líderes republicanos já sabiam como seria a bandeira da República. Ela já estava desenhada, inspirada pelo exterior, especificamente pela França. Seguia o pensamento de Auguste Comte (1798-1857), que defendia que cada sociedade deveria ter por divisa “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso como objetivo.” As bandeiras nacionais deveriam ter a inscrição: Amor, Ordem e Progresso. Na nossa bandeira, não coube a palavra “Amor”. Ficaram apenas “Ordem e Progresso”.
Mas muitas outras palavras ficaram ausentes.

Soberania: já nascemos com um lema importado. Não usamos bandeira com apenas desenhos e cores. E as palavras não foram criadas por um poeta brasileiro.

Solidariedade: a nova república ignorou a solidariedade, quando colocou na bandeira uma divisa escrita, mesmo sabendo que 35% da população não sabia ler. Nem criou escolas para erradicar o analfabetismo e permitir de que todos pudessem ler a nova bandeira.

Em um país com 90% da população na área rural, ninguém fez uma reforma agrária. Sem escola nem terra, os republicanos não completaram a Abolição da Escravatura. A verdade é que alguns deles derrubaram a monarquia e a Lei Áurea assinada pela Princesa Izabel.

Faltou igualdade: a república manteve a mesma estrutura de castas separando pobres e ricos, negros e brancos. Não houve nenhum gesto para reduzir a distância secular que havia entre os brasileiros. Todos eles viraram cidadãos. Acabaram os títulos de nobreza do Império, mas a República continuou um país de doutores e analfabetos, incluídos e excluídos, excelências e gente comum, povo e povão.

Faltou justiça: desde o início, a República tratou diferentemente a distribuição da justiça, prestigiando os ricos - com conexões e dinheiro - em detrimento dos pobres, excluídos, isolados em sua pobreza.

Faltou compromisso com a educação: nem mesmo um ministério da instrução pública foi criado. Esqueceram-se de que a base do pensamento positivista estava no objetivo de “Reorganizar Cientificamente a Sociedade”, o que exigiria a educação de todos como elemento central do progresso. Não pensaram na divisa “Educação é Progresso”, nem agiram nessa direção.

Faltou a palavra ética: e não é por acaso que, poucos anos depois, já começaram a estourar escândalos de corrupção, como se a República brasileira nascesse dentro da caverna de Ali Babá.

Faltou natureza: a república nasceu, cresceu, desenvolveu-se destruindo a natureza que herdara dos índios, que ainda existia ao final do Império. Uma república amante do cimento e do deserto, em nome do progresso.

Faltou democracia: não se passaram muitos anos para a primeira mudança de presidente fora do prazo, e a posse de um novo que se orgulhava do título de Marechal de Ferro. Os primeiros governos da República foram legais, mas aristocráticos, de fazendeiros latifundiários, juristas sem contato com o povo. Depois foram ditaduras civis e militares. Mesmo as democracias se limitaram à legalidade, jamais à integração e à participação popular. A palavra democracia, social e plena, não foi escrita na bandeira.

Faltou emancipação: o último gesto emancipador incompleto foi da monarquia - a Abolição. Desde então, a República tem sido instrumento de manutenção do status quo: nem revolução, nem educação, nem mudança social.
A divisa ficou incompleta, com duas palavras que se casam sucessivamente, pelo autoritarismo, pela passividade ou, de vez em quando, por esmolas.

Escrito por: Cristovam Buarque - cristovam@senador.gov.br

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6/9/07

ATENÇÃO

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7/6/07

Internacionalização da Amazônia

Durante debate ocorrido no mês de Novembro/2000, em uma Universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT), foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado.

Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveriam pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa."

(*) Cristovam Buarque foi governador do Distrito Federal (PT) e reitor da Universidade de Brasília (UnB), nos anos 90. É palestrante e humanista respeitado mundialmente .

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2/6/07

TEMOS MUITO A FAZER

A natureza clama por ajuda; a sociedade está perplexa com a violência, que parece não esgotar seu apetite maligno; as autoridades parecem torcer para que não aumentem os problemas, os quais elas se propuseram resolver quando pediram votos em eleições, e o comportamento humano tem piorado. De onde virá a ajuda? O que o povo pode fazer para sair da crise? Não é de hoje que os cientistas advertem que, se alguma coisa séria não for feita, o planeta Terra "mandará a conta" para pagarmos. O clima está mudando, as geleiras estão derretendo, e dizem que cidades inteiras, localizadas no litoral de alguns países, desaparecerão. A cada ano, o calor fica mais forte. Tudo isso que temos visto é um grito da natureza para que se tomem providências antes que seja tarde.
A violência restringe a vida social de muitos. Já não se pode voltar tarde para casa, e, em alguns lugares, é preciso pedir permissão "aos donos do pedaço" para transitar. Quando não são os bandidos, são policiais que cobram uma "taxa" mensal pela "segurança".
Durante a campanha eleitoral, quando indagados sobre planos de segurança, muitos candidatos apresentavam um esquema infalível. O povo confiou neles, mas, agora, tais políticos, simplesmente, não aparecem e se recusam a falar sobre o que todos estão experimentando. Quando há uma catástrofe-como a que ocorreu ao pequeno João Hélio-o carioquinha de seis anos que foi arrastado por 7 km-, eles surgem, com nariz comprido e ar triste, e prometem que algo será feito. Puro engano! Outras vítimas passarão pelas mesmas ou piores experiências!
É como se houvesse um número aceitável de crimes a serem cometidos: se matam cem em um final de semana, isso é considerado "normal", mas se o número chega a 110, por exemplo, a sociedade grita que isso já é demais. Em outras palavras, muitos julgam que conseguir manter os níveis atuais de criminalidade já seria o suficiente, em vez de buscar zerá-los. Meu Deus! Um caso de roubo, homícidio ou estupro deveria ser algo inaceitável, quanto mais o que constatamosdiariamente! Com a aproximação da volta de Jesus, o diabo está desesperadamente lutando para que sua obra suja seja realizada com toda intensidade. Não é somente a violência que destroi as pessoas, mas também o crime do colarinho branco, tão nefasto quanto o assalto à mão armada. O desrespeito ao lar de alguém deveria ser tão odiado quanto o latrocínio e qualquer outro crime. O que dizer também de pessoas educadas, que se propõem a ser representantes da sociedade, mas advogam a causa do aborto? Você conhece atitude mais cruel do que esse homicídio, cometido contra inocentes já com vida e em formação na madre?
Nós, a Igreja de Jesus, temos muito a fazer! Não conseguiremos resolver tudo, mas, se pudermos tirar das trevas o maior número possivel de pessoas, será um fator glorioso de louvor que prestamos Àquele que nos deu a vida. Lute e faça a sua parte!

Em Cristo, com amor,
R.R. Soares

criado por orlando.t.andrade    12:28 — Arquivado em: Artigos

22/5/07

Três nuvens

Três nuvens pairam sobre o futuro da humanidade.

A primeira é a assustadora nuvem ecológica, que ameaça destruir a frágil rede que sustém a vida no planeta. Os cenários para o futuro são ameaçadores, com pequenas discordâncias quanto à data da tragédia. Estamos ameaçados por um desastre anunciado, resultado do projeto civilizatório que nós mesmos escolhemos.

Depois de quatro décadas de avisos, desde a reunião do Clube de Roma em 1972, o mundo vem vivendo os sintomas do aquecimento global e do clima caótico. Agora, os futurologistas não mais adivinharão o futuro: ele chegou. Seus efeitos são visíveis, suas causas conhecidas e sua evolução previsivelmente catastrófica.

Se mantivermos o mesmo rumo, logo a agricultura estará desarticulada, a água escassa, as cidades baixas ao nível do mar serão cobertas, a economia encolherá, o desemprego será geral, a qualidade de vida cairá dramaticamente, o patrimônio da civilização sofrerá um forte retrocesso.

A segunda é nuvem da divisão social da humanidade em duas partes distintas. Depois de milênios caminhando para o fortalecimento da semelhança entre seres humanos, de séculos construindo o respeito mútuo, e de décadas sonhando com utopias igualitárias, a humanidade está dando passos atrás.

Além de assistir ao aquecimento global, a atual geração vê ampliar-se a brecha social que divide a humanidade em duas. A qualidade de vida, que desde sempre foi diferenciada entre a parcela rica e a pobre, se distanciou ainda mais no século XX. E agora, graças aos novos recursos científicos e tecnológicos, já se percebe que uns poucos seres humanos vivem mais, são mais fortes, saudáveis e inteligentes do que a grande maioria.

Até recentemente, se acreditava que esses benefícios se distribuiriam para os atualmente excluídos. Sabe-se agora que os limites ecológicos e a violência entre excluídos e incluídos levarão a um estranhamento que se transformará em dessemelhança nas características biológicas, mentais e culturais. Será uma separação muito mais dramática do que o apartheid racial ou social, será uma ruptura na semelhança, uma evolução biológica produzida pelas maravilhas da técnica e para horror da ética.

A terceira nuvem é o trágico fracasso intelectual em formular alternativas aos rumos do projeto civilizatório. Depois de termos confiado na democracia e no estado para a condução da utopia, percebemos que o estado é autoritário e a democracia é incapaz de combinar as exigências do mundo global com as demandas isoladas de cada nação.

Os avisos dos redatores do Clube de Roma foram recusados pelo pensamento liberal de direita, que dizia que o mercado teria a solução, e pelo pensamento intervencionista da esquerda, que dizia que a inteligência técnica e política venceriam. A direita desprezava os avisos de crise ecológica, a esquerda via neles uma conspiração contra os países pobres.

Quando a catástrofe chegou, os pensadores ficam mudos. Ainda mais porque os liberais perceberam que o resultado de sua utopia e da extrema riqueza convive com um Gulag Social de prisioneiros - recusados nas fronteiras, pobres abandonados à própria sorte, desempregados, doentes sem atendimento, crianças desnutridas, mães sem leite para os filhos - e os esquerdistas percebem que, ao lado do fracasso das experiências socialistas e da vitória homérica do capitalismo, as bases do seu pensamento estão fracassando.
Nesse quadro, a história caminha e conduz a um desastre. Como se adiante houvesse a ameaça de um grande meteoro, produzido pela própria humanidade, pronto a explodir. O primeiro passo para vencer as ameaças é superar a falta de uma proposta intelectual capaz de enfrentar as outras duas tragédias. O segundo passo é desenhar uma nova utopia, e as bases para uma nova revolução. Mas os intelectuais perplexos e acomodados não oferecem propostas, e os militantes acomodados abandonaram as bandeiras.

Esta é a pior das nuvens: a nuvem seca, que não chove, e encobre silenciosamente qualquer alternativa.


Três nuvens - O Globo - 31/03/2007
Cristovam Buarque
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21/5/07

A deficiência do ensino brasileiro

"Desde o encontro do fogo com o homem, nos primórdios da civilização Pré-histórica, evidenciamos os dotes da racionalidade. Podemos observar que as primeiras descobertas foram usadas para a sobrevivência do ser humamo.

Em um primeiro momento, estiveram em pauta as grandes invenções para o nosso conforto, bem como a ânsia por desbravarmos mais e mais a potencialidade intelectual. Assim, surgiram o rádio e a mídia.

No entanto, o que nos era precioso a princípio, como a busca pelo saber, o aprimoramento educacional que nos permitiu chegarmos até aqui, permeados por projetos Genomas, Cibernética, Clonagem e afins, parece-nos, agora, estarem os valores em uma bifurcação existencial, principalmente no que tange ao Brasil. Vejamos o porquê:

Com a Globalização, a tecnologia de ponta chegara em nossas casas com a velocidade da luz. Muito satisfatório verificarmos que nós, brasileiros, estejamos usufruindo as benefícies como a TV Plasma, o telefone sem fio e o amigo virtual, porém triste é sabermos ser a maioria do povo de nossa nação semi-analfabeta.

Vemos universitários conversando nos MSN e Orkuts com vocábulos que escapam à lucidez de Machado de Assis, Gonçalves Dias e Olavo Bilac, referenciais da inteligência e sabedoria. Com toda certeza, devem estar revirando-se em seus túmulos. "Aki", "axim", "flar", "mundu", "maix"… "pq no final fika loku". É assim que o jovem do país tupininiquim comunica-se. Caros leitores, será mesmo nosso progresso ou retrocesso? Para corroborar com minha assertativa, nossos governantes culminaram em nos dar o golpe de misericórdia: Acabaram-se as repetências! Não há mais temor em tirar notas baixas. Concluimos, com muito pesar, que o estudante não estivera preocupado em aprender, quando frequentava acompanhamentos escolares e reforços, mas, sobretudo, em não repetir o ano.

Do exposto, ficam as perguntas: Conseguiremos sobreviver a essa catástrofe nacional? Teremos futuros doutrores capacitados em dar continuidade à tecnologia, à melhoria do meio-ambiente, à saúde e formarem opinião? O cerne da questão é simples como água. Quanto menos preparada a massa populacional de uma nação, mais vulnerável e moldável será seu povo. O Primeiro Mundo ainda estará muito longe de nós. Que pena…

Maria José Comis Wagner"

Publicado no Jornal do Paraná


criado por orlando.t.andrade    1:53 — Arquivado em: Artigos
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